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Ontem (18/03/14) fui assistir ao show do Luís Capucho em Campinas, onde o compositor exibiu suas variadas facetas artísticas: seu lado cantor, poeta, escritor e artista plástico. Até aí, nenhuma novidade, pois a mistura da música com outras artes é comum na produção de alguns compositores. A apresentação aconteceu no Café com Letras no CIS Guanabara, com horário previsto para 18h30. Antes de iniciar o show, observo no fundo do salão, o compositor andando sozinho e cabisbaixo, absorto em seus pensamentos, talvez se inspirando ou simplesmente estivesse preocupado com os trovões que espocavam lá fora.

Enquanto me distraia com a cena, lembrei-me da primeira apresentação que assisti do Capucho, no final da década de noventa a convite de um amigo músico, o Rodrigo Bucair (percussionista), que iria se apresentar com ele. Quando Capucho começou a tocar, tomei um “tapa na cara” dado por um profundo estranhamento suscitado no ato da recepção de sua música. Não conseguia distinguir se aquele cara era um louco ou um bêbado que lutava para fazer soar alguns dois acordes e dizia na sua letra que botava “palitos no lugar dos dentes”. Aquela sonoridade estranha e letra quase incompreensível era interessantemente instigante, pois me incomodava enquanto ao mesmo tempo me seduzia, numa espécie de paradoxo entre o conceito de belo e o conteúdo de verdade de sua obra, que me interessava mais, talvez pelo choque que causava. Após o show, fui informada pelo meu amigo que Capucho estava se recuperando de sérias lesões e de um coma, e por isso sua voz e movimentos corporais estavam comprometidos. Na hora a ficha caiu e eu refiz na minha cabeça todo o repertório do show, tentando reinterpretar cada palavra ou frase que tinha ficado incompreensível pra mim.

Aproximadamente há 14 anos depois dessa primeira apresentação, tive o privilégio de ouvi-lo novamente, porém agora com a pronúncia clara e movimentos bem mais precisos. Depois daqueles seus momentos solitários antes da apresentação, ele sobe num palco que tinha um aspecto minimalista composto de poucos elementos, com suas pinturas ao fundo. Com a feição tensa, Capucho senta-se no banco, pega o violão e se volta pausadamente para o público, desnudo de qualquer estereótipo de cantor. Sentou-se com o mesmo semblante que lhe acompanhava nos momentos solitários antes da apresentação, e que lhe parece peculiar cotidianamente. Um semblante blazê que não interfere na sua narrativa; pelo contrário, o caráter muitas vezes agonizante das letras, brota das palavras, dos “fonemas” (título de uma canção de sua autoria), dispensando qualquer performance, arranjo, figurino ou outro adereço para ilustrar sua temática.

Essa nudez simbólica se origina da ausência de excessos, principalmente quando expõe e assume corajosamente sua limitação enquanto instrumentista e de maneira verborrágica, fala o que realmente pensa e sente, sem se preocupar com critérios estéticos, muito menos com regularidades métricas, técnicas violonísticas ou complexidades harmônicas. Enquanto interpreta as canções, sua narrativa mostra-se às vezes raivosa, às vezes cínica, às vezes sensual, às vezes doce, porém sem alterar o semblante, apenas explorando o potencial da “expressão da boca”, outra bela canção de sua autoria. Pouco se movimenta enquanto interpreta as canções, mas suas letras alcançam dimensões atingíveis apenas pela expansão da consciência, rompendo tabus. Capucho discretamente nos convida a entrar em territórios proibidos pela moral alienada e conservadora. Seus territórios sonoros se referem a questões subjetivas e universais permeadas por obscuridades e julgamentos morais, como a relação homoafetiva entre homens. Quanto a esse assunto, Capucho descreve detalhadamente e sem pudor tais relações que se dão em uma espécie de submundo, de uma maneira tão natural e despida da culpa cristã, que a interpretação do leitor é que pode ser pornográfica, se trouxer introjectado em seus julgamentos, essa moral baseada em castigos divinos. Sobre isso, Capucho assume seu suposto pecado de maneira bastante crítica na canção A expressão da boca: “se os evangélicos e os católicos estiverem com a razão, minha alma não se salva; se onde as almas se salvam está cheio de evangélicos e católicos, é muito pior.

Capucho desafia e provoca a sociedade cada vez mais conservadora, julgadora, alienada e individualista sem fazer alarde, no anonimato, fazendo serviço de formiguinha, o que revela uma injustiça por sinal, pois pelo valor estético de sua poesia e textos, sua obra merece alcançar um público e reconhecimento maiores.

Algumas de suas músicas foram gravadas por famosos, como “Maluca” por Cássia Eller em seu disco acústico e “Máquina de escrever”, por Pedro Luis. Embora sejam interessantes canções, são mais palatáveis do ponto de vista comercial. No entanto seu lado “B” toca em terrenos movediços, evitados, que falam de estados melancólicos, de angústia, de frustração, do cotidiano da pobreza, do sexo em estado bruto. Esse é o lado mais corajoso do compositor ao atrever-se a cantar que “pessoas são seres do mal”, inclusive ele. Num outro extremo, num momento de docilidade, brinca com o conceito edipiano, tão polêmico e mal interpretado, ao compor uma música que diz “eu quero ser sua mãe, vou te dar muito carinho, brincar no teu corpo pelado”.

Além da narrativa polêmica, a harmonia produzida por seu violão é circular e repetitiva, composta por poucos acordes, acertadamente monótona para que o receptor seja envolvido pela atmosfera diferente em cada música. Essas peculiaridades estéticas da obra de Capucho são antagônicas a tudo que vem sendo produzido pela indústria fonográfica, onde o entretenimento e a ditatura da felicidade a qualquer custo se tornaram uma fórmula explorada como uma mina de ouro.  Em sentido contrário a essa corrente, Capucho segue só, ou como disse em sua apresentação, está se tornando cada vez mais “essencial”, depois que passou a compor sozinho e a se apresentar sem outros músicos. Apenas com seu violão e sua imaginação, Capucho segue em sua viagem solitária; percurso de todo músico que abdica do sucesso por acreditar no conteúdo de verdade de sua arte.  Sua obra interessa a poucos e ele mesmo parece não fazer muita questão em se inserir nos padrões comerciais impostos e difundidos pela grande mídia. 

O poeta-compositor nos convida à reflexão, à liberdade de expressão e ao devaneio de um fluxo de consciência sem compromisso com alguma mensagem objetiva. Simplesmente um divagar de ideias que parte da subjetividade inquieta de um sujeito estranho aos olhos da sociedade estagnada no lugar-comum e sempre pronta para julgamentos estéticos, morais etc.

Quem teria coragem de enfrentar esses dogmas, assim como Luís Capucho?

Raquel Martins